segunda-feira, agosto 28, 2006

“Eu quero uma coisa que não haja!”

"Perguntavam-lhe o que queria : um sumo, um refrigerante, um leite com chocolate, uma água. A tudo a criança dizia que não, cada vez mais desesperada. Acabou por se explicar, gritando: “Eu quero uma coisa que não haja!”
Os estrangeiros em turismo dizem que nos falta, demasiadas vezes, a capacidade de dar valor ao que há. Queixamo-nos quando chove, porque está frio, e quando faz sol, porque o calor é excessivo. Nunca estamos bem, e parece que esse amor ao mal-estar faz parte de nós. No entanto, raras vezes nos ocorre aproveitar essa incomodidade permanente para ir à procura de qualquer coisa que ainda não haja. Imobilizamo-nos a olhar para o que há, nas mãos de outros – e tornamo-nos estátuas falantes da inveja. Em alguns casos, esfolamo-nos a trabalhar para conseguir aumentar aquilo que há – é a isso que, em geral, se chama ambição. E o que fazemos ao sonho das coisas que não há? (...)
“O modelo da mercadoria hoje é o café sem cafeína, a cerveja sem álcool, as natas sem gordura. A meu ver, isso significa, antes de mais, que temos cada vez mais medo de consumir a sério. Queremos consumir, mas sem pagar o preço. Se queremos criticar a sociedade moderna, não podemos agarrar-nos a essa ideia de consumo. Uma chave mais interessante seria a noção de vítima”.
Segundo Zizek, o modelo da vitimização define a ideia de “tolerância”, definida como o oposto de “assédio”. “E o que quer dizer assédio? Quer dizer que o Outro, enquanto sujeito desejante, não deve aproximar-se demasiado de mim. (...) A tolerância, hoje, é exactamente a intolerância. A figura da subjectividade torna-se completamente narcísica: constitui-se no medo da proximidade dos outros”. (...) as pessoas sentem-se culpadas quando não conseguem fruir o prazer – e assim morre o desejo, motor da singularidade humana. Amália, que sabia de desejo pelo menos tanto como Espinosa ou Barthes, sintetizou em meia dúzia de versos este problema político central – porque o desejo é o gatilho erótico de todas as revoluções pessoais ou intercontinentais: “Já não temos fome, mãe/ mas já não temos também/ o desejo de a não ter/ Já não sabemos sonhar/ Já andamos a enganar/ o desejo de morrer”.
Nunca compreendi as pessoas que dizem não conseguir ler à beira-mar – pois se as palavras são feitas da matéria da areia, leves e imperecíveis. A areia estraga os livros, esfacela-os para sempre, é verdade. Anos depois, puxamo-los da estante e ainda há um pó de areia caindo das páginas, como lágrimas secas – e é assim que os livros passam a pertencer à família dos búzios, guardando o eco do mar em que, pelo breve tempo do Verão, mergulhámos sabendo que aquele momento ia acabar, provavelmente sem sequer ter tempo para ser tudo o que poderia ser.
A criança que grita para que a deixem querer uma coisa que não haja é a musa de todos os livros, a musa de todos os desejos que circulam em nós, pedindo apenas a graça de continuar em movimento, para lá da contínua desilusão das felicidades alcançadas.
Um olhar, o brilho do sol sobre a mão que mergulha no mar, o nome que escrevemos na areia molhada da memória, a página marcada no poema que outra mão escreveu, com o nosso sangue, num outro tempo que se funde com o nosso: o Verão traz sempre de volta a inocência vertiginosa do desejo e recorda-nos a nossa mais profunda fidelidade, que é essa de nos entregarmos a uma coisa que não haja. Mesmo ou sobretudo quando pensamos que já nada mais pode haver. O desejo pensa-nos melhor do que nós."



adaptado de Revista Única, Jornal Expresso, de Inês Pedrosa




*****
Desculpem lá pela ausência, mas estar de férias é mais cansativo do que parece...



Até à próxima!

Fiquem bem e “Que a coisa esteja convosco!”

Sailor-Sun e Ticha

2 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

É bem verdade, normalmente não damos valor ao que temos.
Passamos a vida inteira à espera de qualquer "coisa" sem apreciarmos o que e quem temos ao nosso lado.

o blog está fantástico, espero que continuem...

9/06/2006 6:14 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Parece aquela canção de António Variações...

bjs Carlos

9/18/2006 10:49 a.m.  

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